O lavrador e seu ‘‘pote de ouro’’ enterrado

FAUSTO BRITES

 

A notícia espalhou-se rapidamente. Um lavrador de 68 anos teria encontrado tesouro enterrado numa fazenda, na saída para Três Lagoas. O caso do “pote de ouro” veio à tona quando um dos filhos do felizardo foi à delegacia de polícia e falou sobre o assunto, que virou o comentário principal de moradores da região e, inclusive, em Campo Grande.

 

O filho do lavrador disse ao Correio do Estado que o pai sempre teve convicção de que nas proximidades de uma rocha, na propriedade rural, havia algo enterrado.

 

No início de agosto de 1975, decidiu, em companhia de um neto de 27 anos, fazer a escavação e encontrou o “tesouro”, que o deixou “entusiasmado, preocupado e meio fora de si”. Ele teria aberto e visto “coisas brilhantes”, e imaginou que fosse ouro puro. O imaginário das pessoas funcionou de maneira rápida: para umas, eram moedas de ouro; para outras, moedas esterlinas. Já, muitas encaravam o assunto com certa reserva.

 

A entrevista com o filho do lavrador foi publicada na edição de 9/10 de agosto com o título “Lavrador descobriu ouro na fazenda”. Ele contou que o pai decidiu cercar portas e janelas da casa para manter distância dos curiosos, afirmando que só receberia autoridades, queixando-se que de uma hora para outra “todo mundo quer agora bancar o curioso”. O dono do “pote de ouro” era considerada uma pessoa sistemática, “do contra”, e que havia, semanas antes, sido detido na Delegacia Central de Polícia, em Campo Grande, por ter brigado com a esposa.

 

A nora do lavrador disse que nunca imaginou que realmente pudesse existir o tesouro nas proximidades da rocha. Contou que muitas vezes amarrou seu cavalo no local. Deu a entender que duvidava das palavras do sogro.

 

O lavrador e o filho tinham convicção de que um tesouro havia sido encontrado e, enfim, informaram às pessoas que o “pote” era quatro latas com os “objetos preciosos” em seu interior. Permitiam até que pegassem, mas sem abri-las.

 

Quando tomou conhecimento de que o pai tinha encontrado o tesouro, uma de suas filhas foi à fazenda para convencê-lo a viajar para Campo Grande, onde poderia descansar e desfrutar dos benefícios que o “pote” poderia proporcionar.

 

Na propriedade, depois de conversar com o pai e demais familiares, pediu ao pai que a levasse até onde o tesouro estava guardado. Queria ao menos ter conhecimento do que se consistia o achado, alvo de tantos comentários.

 

Mas qual seria o desfecho do achado do “pote de ouro”?

 

Vamos a ele: Na edição do dia 11 de agosto, o Correio do Estado trouxe a verdadeira história com o título: “Tesouro de lavrador só foi tapeação”. Segundo a reportagem, a filha, ao abrir as latas, “além do susto, frustrou-se com o que observara: ali estava um punhado de capim, terra e cacos de vidro brancos e esverdeados”. O lavrador “triste, sem palavras” tinha sido vítima de um golpe. Arquitetando um plano, o golpista disse que no local havia o tesouro e planejou a escavação.

 

De acordo com a reportagem, “Dali, 4 latas foram retiradas. As mesmas latas que o larápio havia enterrado às escondidas. Seguidamente, o tal sujeito avisou (…) que viajaria para o Rio, onde convocaria alguns agentes da Polícia Federal. Só que não ficou só nisso: pediu dinheiro para o lavrador, que lutou com dificuldades, mas conseguiu. E lá se foi o farsante, levando quase 5 mil cruzeiros (…)”.

 

Outro trecho da reportagem: “A história do tesouro percorreu a fazenda e chegou a Campo Grande, onde muita gente chegava a acreditar pelo depoimento do genro e de um dos filhos de (…). Numa cerimônia que foi realizada dentro de uma capela, as 4 latas foram batizadas.

 

Abrindo um pouco uma delas, o lavrador sentia emoção, ao ver a luminosidade daquele que imaginava que fosse um tesouro”. A lábia do golpista fez com que o homem não abrisse as latas enquanto as “autoridades” não viessem.

 

Além disso, quando o caso veio à tona, foi omitido pela vítima o fato de que havia mais uma personagem no achado: o homem que o induziu a fazer a escavação.

 

Caso a filha não decidisse abrir as latas, a vítima continuaria com a ilusão de ter ficado rico com o tesouro encontrado aos “pés de uma rocha”. A reportagem do Correio do Estado encerrou-se da seguinte forma: “Acabou-se, agora, o sonho (…), que volta à sua condição de lavrador, com mais problemas para resolver: pagar a dívida e tentar descobrir o golpista, que deve estar bem longe de Mato Grosso”.

 

 

(Publicado originalmente no jornal diário Correio do Estado)