3 de maio: festa pela divisão do Mato Grosso

 

 

 

FAUSTO BRITES

 

Viva Mato Grosso do Sul !

 

Foi com esse grito, seguido de um efusivo abraço, que fui saudado pela vereadora Nelly Bacha, naquele início de noite  na Rua 14 de Julho em frente à loja do Gabura. Acompanhada de alguns amigos, ela estava em plena efervescência das comemorações por um mais avanço na criação do Estado de Mato Grosso do Sul, naquele 3 de maio de 1977, uma terça-feira, e que levou milhares às ruas da cidade.

 

Campo Grande, naquela tarde, fez um ‘‘feriado’’ improvisado, pois o presidente Ernesto Geisel mandou anunciar que, “depois de vários estudos, o Poder Executivo, concluiu pela conveniência de criar-se um novo estado na região sul de Mato Grosso”. O governador do Estado, José Garcia Neto, havia sido  comunicado horas antes da decisão presidencial. O chefe da Casa Civil do seu governo expediu uma nota onde informou que ele tinha sido informado da divisão quando da viagem do presidente Geisel à Aldeia de Taunay.

 

Tão logo houve o anúncio da decisão de Geisel teve início uma passeata e o trecho da 14 de Julho, entre a Avenida Afonso Pena e Rua Barão do Rio Branco, passou a receber inúmeras pessoas e, logo, o local estava lotado. As comemorações foram noite a dentro. Os campo-grandenses estavam eufóricos pois, finalmente,  nascia o novo Estado.

 

A festa ao ar livre foi regada a cerveja e uísque, e o Correio do Estado, com sua equipe pela cidade registrou a alegria  daquela multidão que não só cantava como, dentre ela, algumas pessoas até dançavam. Comerciantes, comerciários, trabalhadores autônomos,  estudantes, morador de rua, peões de fazenda, enfim, os mais diferentes segmentos de atividades de Campo Grande estavam unidos nesta grande festa, animados por sambas improvisados.

 

Diante da grande concentração, o Departamento da Polícia Federal expediu nota, divulgada na televisão, para que as pessoas mantivessem calma para evitar acidentes.

 

Uma das gráficas imprimiu e distribuiu 100 mil folhetos com os dizeres ‘‘Mato Grosso do Sul – Ame-o ou deixe-o” e ‘‘Obrigado Geisel!”. Nos bares, a cerveja se esgotou e um cidadão não pensou duas vezes: deixou o local em sua caminhonete e voltou carregado, passando a distribuir a bebida para quem quisesse, de graça.

 

O prefeito Marcelo Miranda compareceu e abriu a primeira garrafa de champanhe para o brinde. Horas depois, decretou ponto facultativo e pediu para que, no dia seguinte, as pessoas fizessem seu feriado particular. Do Japão, o seu antecessor, Levy Dias  mandou um telegrama falando de sua satisfação pela criação do novo Estado.

 

O ex-governador do Mato Grosso, Pedro Pedrossian também ainda naquela noite, divulgou  declaração emocionada sobre a criação do novo Estado. Dizia seu comunicado: ‘‘Neste momento tão histórico, neste momento  tão decisivo, é difícil da gente separar a festa da reflexão’’. Afirmou que ‘‘nós temos que realmente refletir em torno daquilo que representou  o grande Estado de Mato Grosso, no papel desempenhado pelos nossos  amigos, dos nossos irmãos do Norte, mas hoje se verificou o fato, que é realmente um fato histórico, ou seja, a criação do Estado de Mato Grosso do Sul ou Estado de Campo Grande, não importa qual seja a cognominação”.

 

Pedrossian agradeceu ao presidente Geisel e disse ainda que “poucas pessoas de nossa geração tiveram a oportunidade de apreciar esse espetáculo de alegria do povo’’, afirmando também que ‘‘não é uma simples separação, esteja certo o presidente Geisel que tomou a medida certa’’.

 

De Cuiabá, Capital do Mato Grosso, o  deputado estadual Ruben Figueieró entrou em contato telefônico com a redação do Correio do Estado para expressar sua satisfação pelo momento histórico.

 

Algumas pessoas não sabiam os reais motivos daquela festa. Um peão da fazenda, que veio à cidade fazer compras, tinha ouvido que  ‘‘estavam querendo cortar o Estado ao meio’’.

 

Outras, mostravam maior conhecimento, como um polidor de carro, de 66 anos, que ficou na calçada observando as pessoas cantar e dançar, mas não menos alegre.‘‘Olha meu filho. O nosso Estado é muito grande, sabe, por isso o presidente resolveu dividir ele para facilitar mais. Era duro demais para o governador cuidar de tudo. Isso aí é política velha, em 1930 houve até um tiroteio em Cuiabá por causa da divisão”, contou ele.

 

O nome Estado de Campo Grande era uma escolha pessoal do presidente Geisel que foi anunciado quando de sua decisão. Dai o porquê, em sua edição do dia 4 de maio, com a cobertura ampla do momento histórico, o Correio do Estado trouxe, na capa, as seguintes manchetes: ‘‘Campo Grande: O novo Estado”, ‘‘Campo Grande terá  governador próprio já em 78, diz Rangel” (referia-se ao ministro Rangel Reis, do Interior) e ‘‘Estado de Campo Grande é recebido com festa’’. Posteriormente, Geisel decidiu mudar a denominação da nova unidade da federação para Mato Grosso do Sul.

 

 

(Publicado originariamente no jornal diário Correio do Estado)

Irritado, Geisel fecha o Congresso

FAUSTO BRITES

 

A edição do dia 2/3 daquele mês, do Correio do Estado, trouxe, como manchete, “Geisel usa AI-5 e põe o Congresso em recesso”. Para se ter uma ideia, o AI-5, de 13 de dezembro de 1968, baixado no governo de outro general, o Costa e Silva, é tido como “a expressão mais acabada da ditadura militar brasileira (1964-1985). Vigorou até dezembro de 1978 e produziu um elenco de ações arbitrárias de efeitos duradouros. Definiu o momento mais duro do regime, dando poder de exceção aos governantes para punir arbitrariamente os que fossem inimigos do regime ou como tal considerados”, conforme o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas.

 

Mas o que levou Geisel a lançar mão do ato tão temido?

 

A edição daquele dia do Correio do Estado reproduziu, na íntegra, o pronunciamento do presidente militar em rede de rádio e televisão. O fechamento do Congresso Nacional, conforme Geisel, se deu “(…) para que o governo possa promover a reforma do Judiciário, além das demais reformas de natureza política, que considero indispensáveis ao bem-estar, à tranquilidade e à própria instituição política de nosso País (…)”. Explicou sua decisão de fechar o Congresso Nacional: “(…) Elas são em decorrência dos problemas que se suscitaram nestes últimos dias, com relação à reforma do Poder Judiciário (…)”, explicando que no início do seu governo (1974), em visita ao Supremo Tribunal Federal, houve conversa informal da necessidade de se adotar mudanças porque a Justiça era lenta e defasada. A partir daí, foram iniciados estudos, envolvendo Executivo e Legislativo, até que se chegou à elaboração de uma emenda à Constituição, que foi enviada, em novembro de 1976,  ao Congresso Nacional. “Imaginávamos que, dado o interesse nacional, pela reforma da Justiça e seu caráter apartidário, teríamos o apoio unânime do Poder Legislativo e dos membros do partido do governo como do partido da oposição. Agora, em março deste ano, verificamos que o partido da oposição apresenta reivindicações que nada tinham a ver com a reforma em si e nem tinham sido objetos de diagnósticos feitos  pelo Supremo Tribunal Superior. Assim mesmo, procurou-se negociar com a oposição, transigindo em determinados pontos, a fim de ver se chegaria a um resultado conciliatório, que não privasse o nosso povo de uma melhor Justiça”, disse ainda o presidente, em seu pronunciamento.

 

Depois, afirmou que não se conseguiu resultado algum porque a oposição tinha decidido fechar questão, “impedindo que seus representantes no Senado e na Câmara votassem a favor da reforma. Adotaram um posicionamento que não se coaduna com o espírito democrático que vivem invocando. Falam em democracia plena e não permitiram que os legisladores do seu partido votassem ou opinassem com relação à reforma. Todos foram obrigados, sob pena de perder o mandato, a votarem contra”.

 

 

(Publicado originalmente no jornal diário Correio do Estado)