Delegado: “Perdeu bigode no alicate!”

– Está preso aí um estelionatário. Ficou enrolando para confessar, mas eu dei um jeito. Arranquei o bigode dele no alicate – disse, sorridente, o delegado quando eu cheguei e perguntei a ele se tinha alguma “bronca” naquele dia.

 

– O senhor fez o quê? – questionei.

 

– Arranquei o bigode desse estelionatário no alicate. Contou tudinho. Andou aplicando uns golpes por aí. Tá lá, agora, quietinho.

 

Perguntei se poderia fotografar o preso e ele autorizou. Fui até a cela e fiz um close do acusado na inseparável Yashica. O delegado mostrou uma foto do preso – feita anteriormente – na qual este ostentava um farto bigode. Sua única preocupação era com um possível processo, pois o acusado o ameaçou de denunciá-lo em razão da tortura.

 

Recolhi as informações e voltei para a redação. Avisei do caso para o chefe de redação, o jornalista Antonio João Hugo Rodrigues, e a foto foi ampliada. Não havia dúvidas: o estelionatário apresentava falhas em seu bigode. A tortura estava comprovada.  Na edição do dia 14 de outubro de 1975, a manchete era: “Delegado arranca bigode de preso com um alicate”. Foi um escândalo à época.

 

Depois que a edição chegou às bancas, o que mais se ouvia na cidade era o caso do “delegado malvado”. As opiniões se dividiam: uns acharam que tinha sido um absurdo, um abuso de autoridade; outros, que a medida tomada tinha sido acertada. “Ele fez bem. Bandido não pode ser tratado com flores na delegacia. Se é prá tratar marginal a pão de ló, então não precisa de polícia”, defendeu o delegado um taxista, do qual eu era amigo e cliente.

 

O delegado regional à época abriu um inquérito administrativo para apurar as responsabilidades pela tortura contra o estelionatário, conforme informava a edição do dia seguinte (15 de outubro). Ele disse que somente tomou conhecimento do caso quando leu o Correio do Estado. Anunciou que iria esperar o registro da queixa – crime da vítima para prosseguir na investigação do ato do delegado o qual classificou como “desumano”, e acrescentou: “se for real”. Apesar de a própria autoridade ter me contado o caso de sua autoria, ainda assim a ocorrência era colocada em dúvida. Falava-se que nada aconteceria – e isso foi divulgado – porque “o delegado tem costas quentes”.

 

De Cuiabá, capital do Estado, o secretário de Segurança Pública, Madeira Évora, ao ser informado sobre o caso, mandou que fosse apurado com rigor.

 

Para ele, era inconcebível que um preso fosse tratado desta forma, principalmente quando Campo Grande ganhava investimentos na área.

 

Explica-se: Campo Grande teve um longo período em que a Polícia Civil contava apenas com a chamada Delegacia Central (na Rua 14 de Julho, entre as ruas 7 de Setembro e 26 de Agosto), a Delegacia do Bairro Amambai, ambas sob jurisdição da Delegacia Regional. A partir de 1977, o governo do Estado reestruturou o setor criando as chamadas “distritais” que foram instaladas em bairros mais populosos. Com isso, houve aumento de efetivo, de viaturas e área de atuação dos policiais. Evidentemente que, a partir daí, as exigências passaram a ser maiores por parte da Secretaria de Segurança Pública, uma vez que as nomeações também deixaram, em sua grande maioria, de ser política (muitos agentes não eram concursados).

 

O delegado estava preocupado com a situação negativa do caso e ameaças veladas eram feitas contra os jornalistas que passaram a acompanhar o caso. Houve informações de que comentários dos familiares da autoridade eram de que estavam acostumados a “capar certas pessoas” que, segundo o Correio do Estado, era uma forma de intimidação. O regional, conforme publicado na edição do dia 16 de outubro, tentou mais uma vez amenizar o fato. Eis trecho da reportagem daquela data: (…) “disse não acreditar na ‘tortura do alicate’, mas tão somente no corte do bigode do estelionatário. O regional, entretanto, admitiu que o delegado ‘para dar uma de macho’ teria dito aos quatro ventos que arrancara o bigode do detido na base do alicate”. (…) .

 

Na edição seguinte (17 de outubro), a manchete: “Confirmada a tortura do alicate”. O estelionatário foi intimado e compareceu à Delegacia Regional onde, acompanhado com seu advogado, contou que realmente teve “tufos” do bigode arrancados pelo delegado.

 

Além disso, afirmou que, para praticar o ato de violência, aquela autoridade policial contou com apoio de alguns agentes, e denunciou também que sofreu espancamentos. A situação, portanto, se complicava cada vez mais para o delegado e sua equipe, a que estava de plantão na noite em que ocorreu o fato. O delegado regional, que assistiu ao depoimento, disse ter ficado “estarrecido” com a denúncia.

 

O desfecho foi publicado na edição do dia 18 de outubro, quando o delegado reassumiu o cargo. Conforme o regional, não ficou comprovada a tortura e o exame do corpo de delito no estelionatário não apresentou “nenhum indício de que a tortura noticiada aconteceu”. Eis um dos trechos da reportagem: “Dizendo-se inimigo de qualquer ato de sevícia – o delegado regional, inexperiente, não conhece os anéis de choque e as palmatórias – garantiu que caso ficasse devidamente comprovada a denúncia, o delegado seria afastado definitivamente”. Prosseguiu dizendo que como o inquérito administrativo “orientado por aquela autoridade nada apurou de positivo”, o titular da distrito foi reconduzido ao cargo “ficando o assunto da ‘tortura do alicate’ debitado unicamente ao sensacionalismo do próprio acusado como torturador. Afinal, foi ele mesmo que disse ter torturado o preso”.

 

(Publicado originalmente no jornal diário Correio do Estado)

Campo Grande: glamour idealizado há  38 anos

A iniciativa de se promover transformação da Rua 14 de Julho, uma das principais vias do centro da cidade de Campo Grande,capital de Mato Grosso do Sul, vem ocorrendo agora, passados 41 anos. A proposta surgiu em 1977 quando o urbanista Jaime Lerner foi contratado pelo então prefeito Marcelo Miranda para promover essa ”revolução” na Cidade Morena.

 

Parcialmente algumas foram executadas, mas a revitalização na via não aconteceuO prefeito Marquinhos Trad (PSD), quatro décadas depois, está executando o projeto Reviva Campo Grande. As obras estão aceleradas e, hoje (26), quando Campo Grande comemora 119 anos e emancipação político-administrativa, o tradicional desfile foi realizado na Rua 13 de Maio devido aos serviços realizados no antigo palco, ou seja, a 14 de Julho.

 

Há três anos, mais precisamente no da 24 de agosto de 2015, o diário Correio do Estado publicou reportagem, de autoria do jornalista Fausto Brites – no ”40 anos de Lida e Leads” – sobre a proposta de se transformar Campo Grande, incluindo a Rua 14 de Julho.

 

Leia abaixo:

 

 

Campo Grande 119 anos: Rua 14 de Julho foi incluída em projeto de revitalização há 4 décadas

 

Aproveitamento das margens dos córregos Prosa e Segredo como um grande parque linear; implantação de inúmeras estações de embarque e desembarque; e áreas verdes com equipamentos de lazer, além de implantação de ciclovias. Essas obras, hoje realidade em Campo Grande, que no dia 26 comemora 116 anos, não foram idealizadas recentemente. Elas “nasceram” há 38 anos e faziam parte de um projeto que seria a revolução urbanística da cidade. Uma mudança aguardada e cujos traços foram apresentados com “pompa e circunstância”.

 

A expectativa era grande naquele dia 14 de julho de 1977.

 

Motivo: enfim, seria apresentado o projeto do urbanista Jaime Lerner, com pretensões de fazer de Campo Grande, a “Cidade Morena” e “Capital Econômica” de Mato Grosso, muito mais charmosa e graciosa, com melhorias no presente com os olhos voltados para o futuro, como era voz corrente pelos entusiastas das mudanças.

 

O prefeito era Marcelo Miranda Soares, engenheiro, que, depois de administrar alguns órgãos do Estado, conquistou o comando do município, com apoio do governador Pedro Pedrossian e do seu antecessor Levy Dias. Ao assumir, decidiu apostar em uma cidade moderna.

 

Ele tinha dois principais motivos para isso: a obrigação inerente ao cargo de fazer o melhor pelo município e, por ter participado de discussões em diversas esferas políticas, recebera a certeza da divisão de Mato Grosso, com a consequente criação do Estado de Mato Grosso do Sul. Assim, contratado por ele, Jaime Lerner aportou com sua equipe para dar início aos trabalhos.

 

Desde fevereiro daquele ano, portanto, o futuro projeto de mudanças tornou-se motivo de comentários na cidade. O jornal Correio do Estado acompanhava a evolução dos trabalhos. Na edição de 26 de fevereiro, por exemplo, uma das manchetes era “Transportes de massa, área de lazer e humanização, as metas de Lerner para Campo Grande do futuro”. O jornal de 23/24 de abril informava: “Em 150 dias, Campo Grande terá plano de urbanização”. A chegada do mês de julho trouxe também o tão esperado “presente e futuro” da já sonhada Capital de Mato Grosso do Sul. Pastas e pastas, além de slides, integravam o programa “A Estrutura Urbana Proposta para Campo Grande”. A data da apresentação não poderia ter sido mais emblemática: 14 de julho, ainda hoje nome da principal rua da cidade e para a qual havia previsão de intervenção urbanística especial, ou seja, o “calçadão”.

 

 

O mais interessante é que, apesar de ser a obra que mais causava expectativa, não se concretizou no local previsto, sendo implantada apenas num trecho da Rua Barão do Rio Branco.

 

 

O jornal Correio do Estado, na edição do dia seguinte, 15 de julho, trouxe reportagem de uma página apresentando o projeto. “Calçadões: a grande vitória do pedestre; transportes, a salvação do trabalhador” foi o título da matéria principal. Os demais: “Um programa muito arrojado”, “O Centro Cultural, áreas de lazer, os fundos de vales, a urbanização” e “Ônibus voltam ao centro: um a cada 5 minutos nos bairros”. Marcelo deu início às obras, mas deixou a prefeitura para assumir o governo.

 

O projeto foi interrompido em algumas administrações. Hoje, o ex-prefeito, ex-senador e ex-governador Marcelo Miranda fala com orgulho do projeto e alerta:

– Cidade sem planejamento está liquidada.

 

(Publicado originalmente no jornal diário Correio do Estado no dia  24 de agosto de 2015)

Tenente japonês Onoda, o ‘‘último dos samurais’’

– Você “mexe” com esse negócio de jornal, né? – Perguntou meu amigo Massuki Kanashiro, durante uma conversa numa noite de junho de 1975.

 

– É. Sou repórter no jornal Correio do Estado.

 

– Você sabia que na Colônia Jamic mora aquele japonês que viveu 30 anos escondido na selva?

 

– Como é que é?

 

– Verdade. Aquele que achou que a guerra não tinha acabado e ficou morando na selva.

– O japonês que entregou a espada para o Ferdinando Marcos, da Filipinas?

– Esse mesmo. Está morando bem perto daqui. Tem uma fazenda lá perto da colônia.

 

Massuki estava se referindo a Hiroo Onoda, um tenente japonês do Serviço Secreto, que, na Segunda Guerra Mundial, recebera a missão de fazer a contraespionagem. Quando o conflito terminou, ele estava só e ainda  se mantinha “sob as ordens” do seu comandante, ao ser enviado para a missão:  fazer de tudo para derrotar os inimigos e não se entregar em hipótese alguma. Depois de muitas tentativas das pessoas que o procuravam na selva, decidiu pela aproximação. Rendeu-se somente quando ouviu a ordem, em  1972, daquele que havia sido seu comandante, em 1942, para que entregasse às armas.

 

Os pais de Massuki moravam na Colônia Jamic, no município de Terenos, uma grande produtora de ovos; e, ao visitá-los, tomou conhecimento sobre o ilustre morador. Naquela conversava, ele me dava uma pauta sensacional, uma história magnífica.

 

Acompanhado de Massuki e do seu irmão Eiji, que seria nosso intérprete, Hordonês Rodrigues Echeverria, Montezuma Cruz e eu seguimos para Terenos, ao encontro daquele que passamos a denominar entre nós de “o último dos samurais” (alusão à elite guerreira do período feudal do Japão, em que disciplina, lealdade e exímia habilidade com o sabre eram suas características principais).

 

Chegamos à fazenda. Quem nos recebeu foi Tadao, irmão mais velho de Hiroo Onoda, que apareceu em seguida. O intérprete entrou em ação para as devidas apresentações. A partir daí, passamos a ser tratados como velhos conhecidos.

 

Como estava acostumado às entrevistas, pois tinha se tornado uma celebridade internacional, percorrendo vários países e contando sua história, Onoda respondia a todas as perguntas com tranquilidade. Entre um gole e outro de chá-verde, ficamos sabendo que sua propriedade tinha 520 hectares – estava ainda sendo desmatada –, em que investiria na pecuária. A área foi comprada três anos depois de ter “se rendido” e deposto as armas.

 

Mas por que tinha ficado três décadas escondido na selva? Hiroo Onoda deu um leve sorriso e, com o livro de sua autoria em mãos, “Trinta Anos de Minha Guerra”, contou sua história.

 

Eis trechos da reportagem publicada na edição do dia 15 de julho de 1975: “Com o ataque americano no Mar do Sul da China e ignorando que a guerra ia chegando ao fim, Onoda fugiu para as matas da Ilha Lubang – 140 quilômetros de Manilla –, escondendo-se numa região montanhosa de 600 metros de altitude. Dormia no chão e, quando chovia, abrigava-se numa choça de madeira nativa que construiu junto a três companheiros que ali também se refugiavam. Comiam bananas com casca, coco, jaca, mandioca, goiaba e outras frutas.

 

Quando saqueavam pequenas aldeias em Lubang, Onoda e os três amigos abatiam reses bovina, geralmente de pouco peso. A carne dava para a subsistência durante um ano. Às vezes, tornava-se impossível conseguir bezerros e vacas, e Onoda caçava búfalos e cavalos, transformando-os em carne-seca. Cada animal abatido dava uns 150 ou 200 quilos e carne.

 

A única preocupação de Onoda foi com seus companheiros, que aos poucos foram desaparecendo: antes do final da guerra, eram quatro. Akatsu, Shimada, Kozuka e Onada, embrenhando-se mata adentro. Cinco anos mais tarde, ficaram três; para, em 1954, o grupo ficar reduzido a Onoda e Aktsu. Onoda ficou sozinho durante um ano e meio. Akatsu partiu em 1971 para o Japão, tão logo descobriu que a guerra havia terminado, por meio de uma carta deixada por desconhecidos (a pedido de familiares), numa caixa, nas proximidades da ilha. Shimada e Kozuka morreram fuzilados, ao tentarem abandonar a ilha, depois de alcançar a costa. Guardando cocos, Onoda sabia o dia da semana e do mês, orientando-se também pela posição da Lua. Ele conseguiu um aparelho de rádio, furtando-o de uma patrulha costeira filipina, embora não pudesse captar datas na emissoras que sintonizava: Londes, Austrália, Moscou, Coreia, China e Japão. Onoda entrou para a ilha munido de um fuzil e um estoque de 400 cartuchos. Agora, em Mato Grosso, utiliza apenas armas leves para duas caçadas. (…). O fuzil que guardou durante longos anos, Onoda entregou ao presidente Ferdinando Marcos, das Filipinas em 1972.(…)”.

 

 

Ele se casou com Machie, que veio do Japão, no Cartório Santos Pereira, em Campo Grande. Voltou para seu país, onde criou uma fundação para atender jovens dependentes químicos. Recebeu o título de Cidadão Sul-Mato-Grossense, pela iniciativa do então deputado Akira Otsubo, em 14 de dezembro de 2004. Faleceu aos 91 anos, em 16 de janeiro de 2014, em Tóquio.

 

(Publicado originalmente no jornal diário Correio do Estado)

 

Velhas conhecidas

FAUSTO BRITES

 

Madame Direita chegou à cafeteria com a empáfia que lhe era peculiar. Tinha um encontro com uma velha conhecida. Entrou no luxuoso salão, olhou discretamente para os lados e dirigiu-se para uma mesa. Povo, o garçom mais antigo da casa, aproximou-se:

– Em que posso servi-la, madame?

Direita empertigou-se e disse:

– Povo, aguardo aquela minha conhecida. Vê se não me incomode até que ela chegue.

Povo retirou-se pensativo. Passados alguns minutos, surge uma esbaforida Esquerda:

– Demorei, mas cheguei – disse, enquanto puxava uma cadeira. Direita, irritada, não se conteve:

– Atrasada como sempre, né Esquerda?

A resposta veio curta e grossa:

– Raivosa como sempre, né Direita?

– Vamos ao que interessa Esquerda – disse a Direita, pegando a piteira e abrindo a cigarreira.

– Aceita um cigarro?

– Preferia, na verdade, um charuto cubano, mas faço uma concessão.

Povo aproxima-se e gentilmente fala:

– Desculpe-me senhoras! É proibido fumar.

As duas olham com desdém para ele e, num uníssono, dizem:

– Povo, desde quando você manda? Ponha-se no seu lugar.

Povo afasta-se, novamente pensativo.

Direita diz, categórica:

– Esquerda, chamei você aqui porque anda pegando pesado contra mim. Críticas têm limites, né?

– Ora, Direita, estamos no mesmo barco, porque você também acaba comigo quando abre a boca.

– Precisamos nos entender, Esquerda.

– Entre nós, tudo bem. Mas lá fora não tem jeito.

– Não venha, Esquerda, você novamente com essa história de voz rouca das ruas.

– Direita, Direita! Saiba entender o momento.

– Ora Esquerda, sem essa Direita aqui, você não é nada.

– Querida Direita, você é quem, sem essa amiga aqui,  pode cair pelas  tabelas.

– Acho que não vamos nos entender. É uma discussão estéril – reconhece a Direita.

– Estéril sim e sabe por quê? Anote aí: Direita e Esquerda são hipócritas – afirma a Esquerda.

– Nossa! Acertou na mosca. Somos irmãs siamesas da política. Vamos fazer tim-tim? –  propõe a Direita.

Brindam, sorrindo.

– Agora, ao que interessa. Estou sem dinheiro – diz a Esquerda.

– Eu também. Mas não se preocupe. Vamos pendurar a conta.

Direita chama:

– Povo, venha até aqui. Vamos assinar nota. Pagamos depois.

– Mas se as madames assinarem, eu vou ter que pagar a conta.

– Você não está acostumado a pagar a conta, Povo? Mais uma não vai te matar – diz a Esquerda.

– A Demagogia está aí? Chame ela aqui –  determina a Direita ao Povo.

Demagogia se aproxima, solícita.

– Esquerda, Direita, que bom ver vocês. O que mandam?

– Nós precisamos sair daqui, mas de maneira discreta. Não quero ser vista com a Esquerda e, com certeza, a Esquerda não quer ser vista com “euzinha”, a Direita. Será que não dá para a gente usar a Conveniência?

– A Conveniência? É claro “amore”. Vou chamar a Corrupção, que ela mostrará a nova saída para vocês. Ela vive inventando novas saídas. Vai dar tudo certo.

Dito isso, soltou uma gargalhada.

Corrupção se aproxima, cumprimenta a Esquerda e a Direita. Sem fazer comentários, a Corrupção leva Direita e Esquerda por um corredor mal-iluminado até a Conveniência e indica duas portas opostas. Ordena, com um sorriso irônico:

– Direita, use a esquerda. Esquerda, use a direita.

 

(Publicada originalmente no jornal diário Correio do Estado)

O lavrador e seu ‘‘pote de ouro’’ enterrado

FAUSTO BRITES

 

A notícia espalhou-se rapidamente. Um lavrador de 68 anos teria encontrado tesouro enterrado numa fazenda, na saída para Três Lagoas. O caso do “pote de ouro” veio à tona quando um dos filhos do felizardo foi à delegacia de polícia e falou sobre o assunto, que virou o comentário principal de moradores da região e, inclusive, em Campo Grande.

 

O filho do lavrador disse ao Correio do Estado que o pai sempre teve convicção de que nas proximidades de uma rocha, na propriedade rural, havia algo enterrado.

 

No início de agosto de 1975, decidiu, em companhia de um neto de 27 anos, fazer a escavação e encontrou o “tesouro”, que o deixou “entusiasmado, preocupado e meio fora de si”. Ele teria aberto e visto “coisas brilhantes”, e imaginou que fosse ouro puro. O imaginário das pessoas funcionou de maneira rápida: para umas, eram moedas de ouro; para outras, moedas esterlinas. Já, muitas encaravam o assunto com certa reserva.

 

A entrevista com o filho do lavrador foi publicada na edição de 9/10 de agosto com o título “Lavrador descobriu ouro na fazenda”. Ele contou que o pai decidiu cercar portas e janelas da casa para manter distância dos curiosos, afirmando que só receberia autoridades, queixando-se que de uma hora para outra “todo mundo quer agora bancar o curioso”. O dono do “pote de ouro” era considerada uma pessoa sistemática, “do contra”, e que havia, semanas antes, sido detido na Delegacia Central de Polícia, em Campo Grande, por ter brigado com a esposa.

 

A nora do lavrador disse que nunca imaginou que realmente pudesse existir o tesouro nas proximidades da rocha. Contou que muitas vezes amarrou seu cavalo no local. Deu a entender que duvidava das palavras do sogro.

 

O lavrador e o filho tinham convicção de que um tesouro havia sido encontrado e, enfim, informaram às pessoas que o “pote” era quatro latas com os “objetos preciosos” em seu interior. Permitiam até que pegassem, mas sem abri-las.

 

Quando tomou conhecimento de que o pai tinha encontrado o tesouro, uma de suas filhas foi à fazenda para convencê-lo a viajar para Campo Grande, onde poderia descansar e desfrutar dos benefícios que o “pote” poderia proporcionar.

 

Na propriedade, depois de conversar com o pai e demais familiares, pediu ao pai que a levasse até onde o tesouro estava guardado. Queria ao menos ter conhecimento do que se consistia o achado, alvo de tantos comentários.

 

Mas qual seria o desfecho do achado do “pote de ouro”?

 

Vamos a ele: Na edição do dia 11 de agosto, o Correio do Estado trouxe a verdadeira história com o título: “Tesouro de lavrador só foi tapeação”. Segundo a reportagem, a filha, ao abrir as latas, “além do susto, frustrou-se com o que observara: ali estava um punhado de capim, terra e cacos de vidro brancos e esverdeados”. O lavrador “triste, sem palavras” tinha sido vítima de um golpe. Arquitetando um plano, o golpista disse que no local havia o tesouro e planejou a escavação.

 

De acordo com a reportagem, “Dali, 4 latas foram retiradas. As mesmas latas que o larápio havia enterrado às escondidas. Seguidamente, o tal sujeito avisou (…) que viajaria para o Rio, onde convocaria alguns agentes da Polícia Federal. Só que não ficou só nisso: pediu dinheiro para o lavrador, que lutou com dificuldades, mas conseguiu. E lá se foi o farsante, levando quase 5 mil cruzeiros (…)”.

 

Outro trecho da reportagem: “A história do tesouro percorreu a fazenda e chegou a Campo Grande, onde muita gente chegava a acreditar pelo depoimento do genro e de um dos filhos de (…). Numa cerimônia que foi realizada dentro de uma capela, as 4 latas foram batizadas.

 

Abrindo um pouco uma delas, o lavrador sentia emoção, ao ver a luminosidade daquele que imaginava que fosse um tesouro”. A lábia do golpista fez com que o homem não abrisse as latas enquanto as “autoridades” não viessem.

 

Além disso, quando o caso veio à tona, foi omitido pela vítima o fato de que havia mais uma personagem no achado: o homem que o induziu a fazer a escavação.

 

Caso a filha não decidisse abrir as latas, a vítima continuaria com a ilusão de ter ficado rico com o tesouro encontrado aos “pés de uma rocha”. A reportagem do Correio do Estado encerrou-se da seguinte forma: “Acabou-se, agora, o sonho (…), que volta à sua condição de lavrador, com mais problemas para resolver: pagar a dívida e tentar descobrir o golpista, que deve estar bem longe de Mato Grosso”.

 

 

(Publicado originalmente no jornal diário Correio do Estado)