”Barãozinho”, infância interrompida com 6 tiros

Fausto Brites

 

Na madrugada do dia 3 de março de 1980, numa estrada vicinal que demandava a Rochedinho, o motorista de um ônibus intermunicipal viu, às margens, um corpo. Ao chegar a Campo Grande, avisou o Comando da Polícia Militar, que enviou uma equipe para o local e fez a comunicação
ao delegado de plantão da Polícia Civil.

 

No local, o reconhecimento da vítima foi de
imediato, mesmo não portando nenhum documento: tratava-se de um garoto de 12
anos, conhecido como “Barãozinho” e com diversas passagens pelas delegacias, acusado de furto de veículos. Ele foi executado com seis tiros, sendo dois no tórax, dois na
barriga, um deles atrás da orelha direita e outro, à queima roupa, na face, do lado direito.

 

Avisado por uma fonte da Polícia logo pela manhã, saí da redação do Correio do Estado, na Rua 14 de Julho, e me desloquei para o necrotério, que era na Rua Rui Barbosa (na mesma área da Santa Casa) e onde se realizavam as autópsias. Minutos depois, chegou o delegado Alair Fernando das Neves, do Setor de Investigações da Delegacia Central da Polícia, que não conteve o choro quando viu o corpo da garoto. “Que maldade que fizeram com essa criança”, disse, soluçando.

 

O delegado tinha dado muitos conselhos para “Barãozinho”. Todas as vezes que o
garoto era apreendido, Alair conversava com ele e pedia  para que voltasse a morar com
os pais, estudasse e saísse da criminalidade. Com apenas 12 anos, era especialista em furto
de veículos.

 

Por que o apelido de “Barãozinho”?

 

Ganhou a alcunha dos próprios policiais, porque era um garoto inteligente,
conversava sobre diversos assuntos e gostava de andar sempre bem-vestido. Nunca
usou de violência para praticar seus furtos de veículos, e sim “a lábia” em algumas oportunidades. Conseguiu, certa vez, ludibriar funcionários de um posto de gasolina, dizendo que “seu pai” (forneceu o nome da pessoa, da empresa, o telefone) havia pedido para
ele buscar o Fiat que havia sido lavado e abastecido. Saiu tranquilo, sem que ninguém desconfiasse de nada.

 

Era audacioso: conseguiu furtar um veículo que estava estacionado em frente a uma residência e, por diversas vezes, passou em frente à delegacia de polícia, sempre em alta velocidade.
Apesar da perseguição, conseguiu escapar. Não usava armas, embora a informação era de que seria líder de uma quadrilha formada apenas por menores de idade, o que nunca se confirmou.

 

Em outra feita, ao chegar à delegacia, eu o encontrei sentado numa das salas. Havia sido detido horas antes, depois de ter fugido, pelo telhado, e ficado escondido por alguns dias. Estava cabisbaixo, olhos fixos no chão. Como o já conhecia das delegacias (à época, eu fazia diariamente o plantão policial), perguntei a ele o que tinha acontecido
para estar “daquele jeito”. Afinal, era um garoto extrovertido, gostava de conversar,
de comentar os mais diversos assuntos.

 

Falou sobre a fuga (aproveitou uma chance, segundo ele), permaneceu em Campo Grande mesmo, dormindo em varandas de alguns estabelecimentos comerciais da
periferia.

 

Disse que estava triste, porque sentia muitas saudades de seus pais. Afirmou, porém, que não gostaria de morar novamente com eles, pois “dou muito trabalho”, “muita dor de cabeça que eles não merecem”.

 

Os pais, moradores em uma  cidade do interior, haviam sido chamado pelas
autoridades, logo que “Barãozinho” começou a agir em Campo Grande. Pessoas simples, explicaram aos policiais que não conseguiam “segurá-lo” em casa, pois o filho sempre fugia. Disseram que não sabiam mais o que fazer para que mudasse a conduta, voltasse para casa e continuasse os estudos; temiam que o futuro do filho fosse “cadeia ou
morte”. As previsões se concretizaram.

 

O Correio do Estado, em sua edição de 4 de março de 1980, trouxe ampla reportagem a respeito do crime, que deixou chocados, inclusive, policiais mais experientes.

 

Um dos trechos: “O crime foi considerado pelos policiais como ‘bárbaro’ e o que é pior:
cometido contra uma criança de 12 anos”. Os pais tiveram a colaboração do prefeito, que cedeu uma ambulância para que viajassem a Campo Grande.

 

Eis outro trecho da reportagem sobre o empenho do delegado: “Inúmeras vezes esteve conversando com ‘Barãozinho’ que possivelmente estivesse inclinado a voltar a ser um menino
normal, mas isto acabou não acontecendo. Seis tiros tiraram-lhe a vida. O delegado Alair sentiu, e muito, pois constatou que o que significava muito mais para ‘Barãozinho’ era a amizade, e não a prepotência”.

 

A morte do garoto de 12 anos, assassinado de forma brutal, causou, como não poderia deixar de ser, grande repercussão na cidade, e isto levou a Secretaria de Segurança Pública a tomar providências para apuração da execução e, assim, nomeou um delegado
especial para cuidar do caso. Alair das Neves foi encarregado das investigações e recebeu o prazo de 30 dias para apresentar alguma solução. “Barãozinho” teve o corpo sepultado em Campo Grande. O crime não foi solucionado.

 

(Publicado originariamente no jornal diário Correio do Estado)

 

Ilustração: Fausto Brites